por Jeziel Bueno
Saudações meus caros!
Como muitos já devem saber, estou trabalhando para publicar um livro do gênero de suspense e drama. Contudo, enquanto o livro não sai (em outras palavras, enquanto estou conseguindo o dinheiro para publicá-lo), não consigo ficar longe da minha grande paixão pela escrita.
E foi por isso que escrevi o meu mais novo conto, descrito em um cenário que muito me agrada, o cenário mágico e vasto da Fantasia.
Então sejam todos bem-vindos à mais essa aventura!
Espero que gostem!
E até o próximo post!
O
Menino e o Dragão
Rynmla
descia a escadaria da grande torre. A chama de sua vela tremeluzia graças as
desagradáveis correntes de ar que por ali circulavam, mas isso não desanimava a
garota. Desde a mais tenra idade, ela havia sido deixada aos cuidados de seu
tio, o Grande Senhor da Biblioteca, responsável por manter seguro todo o
conhecimento que o Reino havia acumulado ao longo dos séculos. Reis morreram e
nasceram e os livros permaneceram na torre, protegidos das guerras e das demais
tribulações que assolavam as terras circunvizinhas. Havia ali mais de mil
livros e ela ainda não lera nem mesmo uma fração deles, contudo, isso apenas
fazia aumentar a sua paixão pelas histórias. O ultimo que ela havia lido tinha
como título: NATUREZA E HABITOS DOS DRAGÕES e era ele que ela carregava agora debaixo
do braço. Alguns instantes depois, a jovem de cabelos e olhos castanhos
finalmente alcançou o andar inferior da torre onde um odor pungente de vela
derretida pairava no ar.
‒ Tio? ‒ chamou ela.
Um homem bastante velho e com uma longa barba prateada
estava empoleirado em uma surrada poltrona marrom e tinha um grande livro sobre
o colo. Ele lia com uma atenção exagerada como se todo o mundo a sua volta não
tivesse a menor importância. Como se sua realidade fosse agora a que se
desfraldava nas paginas diante de seus olhos.
‒ TIO! ‒ insistiu a garota.
O velho estremeceu e deixou cair o livro. Em seguida,
olhou sua sobrinha com uma expressão de espanto no rosto.
‒ Mas pelos ossos do monarca! ‒ vociferou. ‒ Que desastre
está acontecendo no Reino para você me assustar desta maneira Rynmla? Por acaso
deseja me ver morto?
A jovem abaixou os olhos, envergonhada.
‒ Me desculpe tio! ‒ disse ela. ‒ Não tive a menor
intenção de assustá-lo!
A expressão do tio se abrandou, ele relaxou os ombros e
esboçou um sorriso.
‒ Não se deixe levar pelas bravatas de um velho tolo
minha cara! ‒ apaziguou ele. ‒ Diga-me em que posso lhe ser útil!
Os olhos da garota se voltaram novamente para ele com
renovado fulgor. Também havia irritação neles.
‒ Esse livro é uma fraude! ‒ esbravejou a garota. ‒ Está
repleto de asneiras!
Os olhos cansados do tio foram de encontro com o título
do livro e depois para os olhos da sobrinha.
‒ E por que você acha isso minha querida?
‒ Por que ele está cheio de baboseiras falando de dragões
como se eles realmente existissem! Mas é tudo mentira! Os cavaleiros do rei
percorrem todas as estradas e os exploradores viajam até os confins mais
distantes dos Reinos e jamais viram um dragão! Eles não passam de fruto da
imaginação dos homens! Apenas elementos das histórias que os menestréis contam
ao redor de fogueiras!
O olhar da garota estava carregado de irritação e grande
convicção. O tio a olhava de volta, com uma expressão indecifrável para ela.
Até que ele desatou a gargalhar. Rynmla o olhou, indignada. Não achava a menor
graça na situação.
‒ Sinto muito minha querida! ‒ desculpou-se o tio. ‒ Não
quis em momento algum lhe ofender, mas como pode ter tanta certeza do que está
falando?
Por um momento ela hesitou.
‒ Ora, por que é isso o que dizem os homens que passam em
viagem por aqui! ‒ respondeu ela finalmente. ‒ Eu sempre converso com eles!
Aquilo era verdade. Rynmla era uma garota viciada em
informação. Ela passava os dias enfurnada em seus aposentos ou nos corredores
da biblioteca, sempre com um livro nas mãos. Nas raras ocasiões em que
abandonava a torre, sempre ia à taverna, seu segundo local preferido do mundo. Uma
vez lá, encontrava viajantes de diversos lugares e puxava conversa com eles,
sempre questionando sobre as questões do Reino e suas histórias. Ah, as
histórias, Rynmla adorava histórias.
‒ Ora, mas como sabe se estão falando a verdade se você
não é capaz de confirmar? ‒ indagou o tio com ar divertido. ‒ Você nunca viu o
vento, mas não é capaz de afirmar que ele não existe não é mesmo? Você também
nunca viu um dragão, então, como é capaz de dizer que eles não existem?
Rynmla refletiu por um instante. Em seu rosto, pairava
uma névoa de dúvida e frustração. Por fim, ela olhou profundamente nos olhos do
tio.
‒ Tio, dragões existem?
Os lábios descarnados do velho esboçaram um sorriso. Ele
se ajeitou na poltrona e pigarreou. Em seguida, encarou-a com um brilho
diferente nos olhos.
‒ Ora minha cara, essa resposta é extremamente difícil de
responder! É bem verdade que dragões não são vistos há muito tempo por olhos
humanos e se isso significa que eles não existem mais, então, a única coisa que
posso dizer é que esse é um fato lamentável, pelo menos aos olhos da Ciência,
uma vez que foram criaturas fantásticas, mas também muito perigosas! Contudo,
afirmar que eles nunca existiram, é algo tão equivocado como afirmar que os
peixes não nadam e que as aves não voam! Uma tremenda mentira!
Os olhos de Rynmla faiscaram a luz da vela que estava
atrás do tio. Neles havia inúmeros questionamentos, mas também havia grande
curiosidade.
‒ E como o senhor pode afirmar isso? ‒ indagou ela ‒ Por
acaso já viu algum?
O tio gargalhou novamente e depois de um instante, seu
riso se transformou em tosse e ele arqueou. Rynmla se levantou prontamente e
correu ao longo da sala, dirigindo-se a uma grande mesa de carvalho que estava
repleta de livros e pergaminhos. Seus dedos ágeis se fecharam em uma caneca de
barro que estava entre duas pilhas de pergaminhos e em seguida, a garota
disparou de volta para onde o tio estava. Alguns pingos d’água desenharam um
pequeno rastro na poeira que cobria o chão de pedra. Rynmla finalmente alcançou
o tio e levou a caneca aos seus lábios ressecados. Ele bebericou um pouco da
água e depois pigarreou novamente, dessa vez com mais intensidade,
desobstruindo os velhos pulmões. Uma sensação de pena se alastrou pelo coração
da garota enquanto ela observava seu tio com a cabeça baixa. Aos seus olhos,
ele parecia muito antigo e frágil. Mas em seguida, os olhos dela se
arregalaram, pois seu tio erguia a cabeça e lhe lançava um olhar bastante arguto
e misterioso, bem diferente da expressão frágil de instantes atrás.
‒ Sente-se minha cara! ‒ ordenou ele. ‒ Tenho uma
história para lhe contar...
***
Há
muitos anos atrás, em uma terra distante, um garoto vivia em uma grande cidade.
Seus pais haviam morrido quando ele tinha apenas oito invernos de vida graças a
uma dívida com Tolkrar, um perigoso criminoso, o qual, em uma noite, invadiu
juntamente com vários de seus capangas, o velho casebre da família e os atacou.
Escondido em um barril repleto de restos de comida, o garoto assistiu
horrorizado os bandidos enforcando seus pais em um beco escuro e povoado por
ratos. Depois daquela noite, ele foi obrigado a sobreviver a todo custo naquela
cidade cruel e implacável. Aproveitando-se de seus dedos ágeis, acabou
conseguindo sobreviver roubando tudo o que a oportunidade lhe permitisse.
Roubava frutas das tendas dos mercadores, moedas das bolsas de incautos
transeuntes e chegou até mesmo a invadir pela janela, a morada de um nobre para
surrupiar algumas moedas de ouro. Na ocasião, quase foi pego, pois a filha do
nobre estava em sua banheira, tomando um banho quente com flores perfumadas
quando vislumbrou aquele garoto maltrapilho caminhando pelos corredores da casa
de seu pai. Ela gritou a plenos pulmões, mas antes que os guardas pudessem
capturá-lo e levá-lo ao magistrado que provavelmente ordenaria que lhe fosse
amputada uma de suas mãos, o garoto conseguiu atravessar a janela e fugir pelo
telhado, fazendo todos de idiotas. Graças a esse feito, ganhou entre os demais
órfãos da cidade, o apelido de Falcão, porque ele se deslocava nas alturas e
corria feito o vento. Durante os dias, ele perambulava pelas ruas e os
telhados, furtando tudo o que podia e, durante as noites, se confinava em um
cantinho entre dois telhados, no bairro dos templos da cidade, sozinho e
angustiado.
Contudo, até mesmo o famigerado e astuto Falcão enxergou
um fim para os seus dias de sorte e foi no ano em que completaria doze
primaveras que ele cometeu o seu pior erro, pois, convencido de que era
intocável, resolveu arrebatar algumas das moedas do cofre do palacete de um
rico mercador, porém, o que ele não sabia, era que o palacete na verdade
pertencia a Tolkrar, o mesmo criminoso responsável pela morte de sua família há
vários anos. O local era guarnecido por uma guarda composta por terríveis
mercenários. Os acontecimentos que se seguiram se desfraldaram tão rápido
diante dos olhos de Falcão que ele jamais conseguiria descrevê-los depois. Os
mercenários o pegaram no flagra, mas, rápido como sempre, ele fugiu por uma das
janelas, se içou em uma viga de madeira e aterrissou sobre a tenda de um
vendedor de frutas, destruindo-a. Em seguida, correu para a rua como um leopardo,
mas então, ouviu os sons provocados pelos cavalos que estavam sendo montados
pelos mercenários às suas costas. Uma terrível e implacável perseguição se
desenrolou naquela tarde e Falcão só não foi atropelado pelos corcéis porque a
multidão que caminhava pelas ruas oferecia um obstáculo para seus
perseguidores. O órfão acabou atravessando os limites da cidade e entrando na
densa floresta que se espalhava diante da grande muralha de pedra que a cercava.
Por um momento, Falcão se sentiu completamente livre, inspirando o ar puro da
floresta, extremamente diferente daquele que permeava a atmosfera da cidade,
que era impregnado pelos odores das latrinas a céu aberto e do suor dos
transeuntes. Contudo, seu alívio logo se dissipou quando ouviu atrás de si, as
pragas que eram lançadas pelo próprio Tolkrar, que liderava pessoalmente a
caçada. Falcão correu, mas no fundo, sabia que era inútil, pois seu inimigo
contava com cães rastreadores e eles logo encontrariam seu rastro. Seus pés o
conduziram através de uma mata cerrada e sem trilha. Os galhos lhe açoitaram a
face e espinhos lhe cortaram as pernas. Foi então que o chão se desfez sobre
seus pés e ele se viu caindo por um buraco escuro. Despencou sobre um chão fofo
e coberto de limo. Desesperado, tentou se por de pé, mas caiu novamente quando
um som estranho lhe chegou aos ouvidos. Um estranho rugido, provocado por algum
tipo de animal que ele jamais havia conhecido em sua vida. E estava se
aproximando.
Por um momento, Falcão estancou, incapaz de se mover ou
de fazer qualquer outra coisa. Sentia algum tipo de respiração quente se
aproximando lentamente de suas costas. Foi então que ele viu que a caverna onde
se encontrava possuía mais de uma entrada e através de uma grande fenda na
rocha nua, vislumbrou várias sombras dançantes, se aproximando.
‒ Finalmente o encontramos seu sarnento! ‒ vangloriou-se Tolkrar,
seus olhos brilhando como os de uma raposa. ‒ Agora vai descobrir o que
acontece com quem se atreve a roubar o que é meu!
Falcão sentiu um arrepio gelado lhe subir pela espinha e,
incapaz de se defender, fechou os olhos e cerrou os dentes. Espadas cintilaram
a sua frente, mas nunca o atingiram. O rapaz sentiu alguma coisa deslocar o ar
acima de si e atingir seus perseguidores com um baque surdo. Os sons que se
seguiram foram aterradores, mas o garoto não foi capaz de abrir os olhos, de
tão apavorado que estava. Ouviu o som de aço se chocando contra algum tipo de
couro, carne foi destroçada e ossos foram partidos. Ouviu o som do fogo e os
gritos de homens desesperados e agonizantes. Sentiu o cheiro de carne queimando
e depois um grito inumano e ensurdecedor ecoando pelas paredes da caverna. Foi
quando abriu os olhos e por um momento, não acreditou no que viu. Os homens que
o ameaçavam há alguns instantes jaziam agora espalhados ao longo da caverna,
seus corpos destroçados e fumegantes. Todos estavam mortos. Todos, exceto um.
Ao estreitar os olhos, Falcão viu uma silhueta se movendo lentamente pelo chão
da caverna. O garoto então se pôs de pé e se aproximou. Tolkrar ergueu os olhos
para ele. Estavam cobertos de lágrimas.
‒ Eu o atingi! ‒ grasnou ele, entre golfadas do próprio
sangue. ‒ Ele arrancou minhas pernas, mas eu consegui enfiar minha espada
naquele demônio!
Falcão deixou seus olhos percorrerem o corpo de seu
arqui-inimigo e percebeu que ele falava a verdade, suas pernas haviam
arrancadas e o que restava delas agora não passava de cotocos ensanguentados.
Durante toda a sua infância ele odiara aquele homem e sonhava com o dia em que
o encontraria e enfiaria uma faca em suas entranhas, mas naquele momento, o que
sentiu foi pena.
‒ Mate-me garoto! ‒ suplicou Skrar. ‒ Não me deixe
sangrar até a morte! Por favor!
Falcão deixou sua mente divagar até as lembranças de seus
pais, dos tempos em que sua vida era realmente feliz e fazia algum sentido, mas
não sentiu tristeza nem raiva, apenas uma sensação de vazio, como se um buraco
houvesse sido aberto em seu peito. Levou a mão até o cabo de uma grande espada
que estava caída no chão da caverna e a ergueu sobre sua cabeça. Em seguida,
deixou-a cair e a lâmina se enterrou no peito do homem moribundo. Tolkrar
soltou um gemido e então morreu. Seus lábios delineados em uma espécie de
sorriso macabro. Falcão deixou seus ombros descerem por um instante, mas logo
ficou tenso de novo, quando um gemido agudo e forte lhe chegou aos ouvidos,
semelhante aquele que ele havia ouvido enquanto ainda estava com os olhos
fechados. Sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. Olhou em volta e
percebeu que, com algum esforço, talvez pudesse subir pelo lugar onde havia
caído e talvez fugir do que quer que tivesse abatido os bandidos. O gemido se
fez ecoar novamente e acometido por uma grande curiosidade, Falcão desistiu de
seus planos de fuga. Precisava conhecer seu salvador, mesmo que fosse
extremamente perigoso. Libertou a espada que estava empalando o corpo de Tolkrar
e empunhando-a com dificuldade graças ao seu peso, se dirigiu a saída da
caverna com passos hesitantes. Quando saiu da caverna, os raios solares lhe
inundaram os olhos e ele demorou um instante para se acostumar com a luz. Em
seguida, olhou em volta e sua atenção foi atraída imediatamente por uma grande
massa avermelhada que se avolumava sobre um velho salgueiro. Relutante,
aproximou-se, atento a qualquer ruído ao seu redor, mas com os olhos sempre
fixos naquela massa cor de sangue. Foi então que ela se mexeu e o garoto sentiu
como se o espírito houvesse abandonado seu corpo. Do meio daquela massa
vermelha se ergueu um pescoço reptiliano que terminava em uma grotesca cabeça
coroada por chifres onde um par de grandes olhos dourados e redondos o fitava
ameaçadoramente.
Falcão se lembrou das histórias que sua mãe lhe contava
junto à fogueira nas noites de inverno em que ninguém saía de casa. Ela lhe
falava sobre um tempo em que criaturas colossais cortavam os céus e faziam
chover fogo, destruindo as cidades e as florestas. Os chamados dragões eram
criaturas de terras distantes que só conheciam a crueldade e a sede por sangue.
Trava-se de seres monstruosos que não eram dotados de qualquer sentimento, nem
mesmo para com os de sua própria espécie, o que acarretou em sua extinção.
Súbito, os pensamentos e as conjecturas do garoto foram interrompidos quando o
enorme réptil abriu sua bocarra exibindo fileiras de dentes extremamente
afiados e curvos, então fez-se ouvir novamente aquele ruído agudo e ensurdecedor,
obrigando o garoto a tapar os ouvidos com ambas as mãos. Quando o dragão
terminou seu gemido, tornou a fechar as mandíbulas e voltou-se novamente para o
garoto. Seus olhos repartidos fitavam Falcão com uma intensidade quase
sobrenatural e o garoto sentia que a criatura não apenas o observava, mas
observava dentro de sua alma. Então, ele sacudiu o rosto para afastar aqueles
pensamentos e começou a analisar a situação. Logo percebeu que algo se
projetava das costas do dragão, uma enorme espada que se enterrava
profundamente em sua carne. A lâmina havia atingido um grande feixe de músculos
que se ligava a enorme asa esquerda de morcego da criatura, impedindo-a de
voar, talvez para sempre. Falcão percebeu que ele estava indefeso, assim como
um veado que fica preso na armadilha de um caçador, incapaz de se libertar e
resignado a esperar pela morte e, naquele momento, o garoto percebeu o quanto o
monstro era pequeno. Talvez fosse enorme se comparado à maioria dos animais da
floresta, mas miúdo diante daquelas criaturas que povoavam as lendas da mãe.
Mas o que mais chamava a atenção de Falcão era a expressão daqueles olhos. Não
era uma daquelas entidades sanguinárias das lendas, era apenas um filhote. Um
filhote de dragão. E estava para morrer.
Falcão deu um passo à frente e seus dedos se acomodaram mais
confortadamente sobre o cabo da espada. Sentindo seu sangue negro cascatear
sobre suas escamas, o dragão abaixou a cabeça, aguardando o golpe final. Falcão
se aproximou. O monstro era inteligente afinal de contas.
Foi
então que aconteceu o impensável. Em vez de enterrar sua espada e despachar o
animal moribundo para o pós-vida, Falcão deixou cair a arma que carregava nas
mãos e estendeu seus dois braços a frente. Seus dedos se fecharam firmemente
sobre o cabo da espada que estava cravada no dragão e ele puxou. O dragão se
enrijeceu e gritou, debatendo-se furiosamente. Falcão foi atingido por uma asa
e caiu de costas, mas em um instante já estava de pé novamente.
‒ Fique quieto! ‒ esbravejou o garoto. ‒ Não vê que estou
tentando salvar sua pele?
E, ao dizer isso, o garoto se moveu rápido, como era de
sua natureza, e se empoleirou nas costas do dragão, agarrando a espada com
firmeza. O dragão urrou sofregamente e suas asas se abriram em um ângulo
sinistro, mas o garoto não desistiu e forçou todos os seus músculos, fazendo-os
estalar. A lâmina começou a emergir centímetro a centímetro de dentro da carne
do monstro, o metal empapado de um espesso sangue negro. O dragão se agitou e
balançou, tentando se livrar do incômodo humano que figurava em suas costas até
que finalmente Falcão caiu e a espada mergulhou em um arbusto próximo. O dragão
rugiu furiosamente e agitou as asas, movendo-se em suas patas e ficando de
frente para Falcão.
‒ Como sou idiota! ‒ xingou-se Falcão.
Mas o ataque que ele esperava nunca veio, pois o dragão
se limitou a fitá-lo com uma expressão furiosa nos olhos. Talvez ele saiba que
eu salvei sua vida, pensou Falcão e o garoto provavelmente estava certo, pois
em vez de matá-lo, o réptil apenas deu as costas para ele e começou a caminhar
apressadamente pela mata, abrindo suas asas e saltando. Contudo, ele caiu logo
em seguida, estatelando-se entre duas arvores. Falcão sentou-se na relva,
observando com interesse. Novamente o animal alado começou a trotar pela grama
com as asas abertas e a saltar, apenas para cair desajeitadamente de novo. Ele
estava ferido e seu ferimento o impossibilitava de voar. Resignado, o dragão
abaixou a cabeça, seus olhos demonstrando sua frustração e tristeza.
‒ Eu sei o que você está sentindo amigo! ‒ disse Falcão,
censurando-se logo em seguida ao perceber que estava falando com um animal.
Mas o dragão na era um animal qualquer, pois assim que
ouviu aquelas palavras, seus olhos se voltaram para o garoto e Falcão se deu
conta de que estava diante de uma das mais impressionantes criaturas do mundo.
Um ser quase tão inteligente quanto ele próprio e então o jovem refletiu no
tamanho da inteligência que deveriam possuir os grandes espécimes das lendas de
sua mãe. Sem dizer mais nenhuma palavra, Falcão se pôs de pé e, acometido por
uma súbita coragem, se aproximou dele a passos compassados. A princípio, o
dragão deixou escapar uma baforada quente, semelhante a um aviso, mas Falcão a
ignorou. Se fosse para ter sido morto pelo dragão, isso já deveria ter
acontecido. Quando os dois estavam a apenas algumas polegadas de distância, o
garoto estendeu a mão e tocou o focinho draconiano. Suas escamas eram quentes e
lisas. O dragão pareceu ficar surpreso com a ação do garoto, mas não se moveu.
Em seguida, agitou de leve o rosto e esfregou o focinho na mão do garoto. Um
forte laço de amizade se iniciava naquele momento.
‒ Vou chamá-lo de Screek! ‒ disse o garoto, sorrindo. ‒
Pois esse é o barulho que você faz quando está gritando!
***
Falcão
se apoderou das bolsas dos bandidos e encontrou um unguento que os homens da
cidade costumavam usar em ferimentos de cortes com espadas. Aplicou o conteúdo
do frasco no ferimento nas costas do dragão. Armou-se da grande e bela espada
de Tolkrar e abandonou as carcaças dos bandidos para apodrecerem na caverna. A
partir daquele dia, Falcão e o dragão Screek começaram a caminhar juntos pela
floresta. O garoto conversava com ele em um infinito monólogo, mas sabia que o
animal compreendia a tudo que ele dizia. Os meses seguintes foram se passando
de uma forma que o garoto jamais havia conhecido. Ele não estava mais sozinho e
não era obrigado a passar suas noites angustiado no cantinho entre os telhados
da cidade. Agora, pela primeira vez na vida, tinha um amigo com quem poda
compartilhar todos os momentos do dia, mesmo que fosse um dragão. Os dois
começaram a viver apenas com o que a floresta lhes fornecia. A princípio,
Falcão o ajudava na caça, pois o dragão era acostumado a arrebatar suas presas
em voo rasante, mas agora ele tinha de capturá-las no chão, onde era
desajeitado e lento. Fizeram morada em uma caverna próxima a um riacho de águas
cristalinas, pois a velha caverna onde Screek morava era fétida e apertada,
além de estar repleta de aranhas e outros insetos. Algum tempo depois, Falcão
percebeu que o ferimento nas costas de seu amigo havia se transformado em uma
cicatriz e então, o garoto o conduziu até um vale.
‒ Está na hora Screek! ‒ disse ele. ‒ Suas asas já estão novinhas
em folha! Está na hora de voar!
Screek hesitou por um momento, fitando Falcão com um
ligeiro espanto. De certa forma, o dragão havia se acostumado à vida terrena,
pensando nos tempos em que podia ganhar os céus apenas como uma lembrança
alegre de mil anos atrás. Contudo, Falcão o encarou de volta com grande
entusiasmo, intimando seu companheiro. Resignado pela força de vontade do
amigo, Screek se voltou para um morro íngreme e abriu suas asas. O vento que soprou
em seu rosto o fez se recordar do prazer que sentia durante os voos de outrora,
mas a visão do fundo do vale o fez hesitar. Falcão se aproximou e lhe tapeou
gentilmente a parte de trás de sua asa esquerda.
‒ Você consegue amigo! ‒ encorajou o garoto.
Screek então deu alguns passos para trás e depois
disparou na direção do morro. Suas garras arranharam o chão, removendo grama da
terra e ele enfim saltou. Suas asas subiram e desceram, mas o dragão não voou,
em vez disso, tropeçou e caiu desajeitadamente sobre o morro, rolando sobre a
relva, porém, no meio da queda, ele projetou toda a sua força nas quatro patas
e atingiu o chão com força, impelindo seu corpo escamoso para cima. As asas se
abriram e o ar deslizou por elas. Screek fechou os olhos repartidos por um
momento e quando os abriu, vislumbrou o chão a vários metros de distância de
suas patas. Em seguida, olhou em volta com desconfiança, mas percebeu que seu
corpo havia se recordado de como era voar. Então, o dragão agitou as patas
musculosas e dançou no ar, fazendo acrobacias. No chão, Falcão ergueu os braços
e gritou orgulhoso. Observou Screek se distanciar até se transformar em um
ponto no horizonte, então, imediatamente sentiu uma pontada de tristeza em seu
coração. Seu amigo recuperara a habilidade de voar e agora nada o impedia de
abandoná-lo, afinal, o garoto sabia que o horizonte com certeza prometia muito
mais alegria e aventuras do que um pobre órfão como ele podia oferecer. Baixou
os olhos e sentiu uma lágrima brotar no canto do olho direito. Foi então que
percebeu, com a visão periférica, que uma sombra se aproximava e, ao olhar para
cima, pôde ver Screek retornando, mergulhando em sua direção, sua bocarra
aberta, assemelhando-se a um grande sorriso. Falcão sorriu. Seu amigo parecia
ainda mais jovem do que era, brincalhão como o filhote de um cão.
O jovem órfão abriu os braços, acenando para seu amigo,
esperando que ele aterrissasse ao seu lado, mas isso nunca aconteceu, pois
Falcão sentiu uma grande sombra consumir seu corpo e a relva ao seu redor. Ao
olhar para cima, ele viu algo colossal cobrindo o céu. Outro dragão, mas muito
maior do que Screek.
Uma
lufada de vento, provocada pelo deslocamento do grande réptil, lançou Falcão ao
chão, fazendo-o cair de cabeça no solo. O garoto sentiu um filete quente de
sangue escorrendo sobre seu couro cabeludo, mas não perdeu a consciência graças
à grama que amortecera o impacto. Screek planou e tentou se esquivar do grande
dragão vermelho que se avolumava diante dele, mas seus esforços foram inúteis,
pois o animal colossal projetou uma pata em sua direção e suas grandes garras,
que facilmente destroçariam uma parede de tijolos, envolveram o pequeno dragão
entre elas. Screek se debateu, mas não conseguiu fugir. Abaixo dele, Falcão já
se colocava em pé com dificuldade e com a cabeça latejando.
‒ Screeeeeeeek! ‒ gritou o garoto.
Carregando Screek como um leve fardo, o grande dragão se
agitou no ar e se virou para o leste. Em seguida, ganhou velocidade e sobrevoou
a floresta, afastando-se rapidamente. Sobre o topo do morro, Falcão observou
impotente seu único amigo ser levado para longe até que os dois dragões
desapareceram no horizonte. Desolado, continuou observando por mais alguns
minutos. Às vezes, pensava que ainda podia vê-los voando sobre as nuvens ao
longe, mas é claro que era apenas fruto de sua imaginação. Eles já haviam
sumido dali a um bom tempo. Desolado, o garoto caiu por sobre os joelhos e
desatou a chorar. Chorou intensamente como não chorava há muito tempo. Não
havia chorado daquela forma nem mesmo quando foi esfaqueado por um mendigo com
uma garrafa quebrada, ou quando foi espancado por três garotos de rua, ou ainda
quando foi pego por um dos membros da guarda da cidade e esmurrado por três
dias seguidos. Ele só chorara daquela forma na noite em que perdera seus pais.
Os anos de sobrevivência árdua na cidade lhe haviam afastado esses pensamentos.
Não os erradicado, mas colocado sobre eles uma espécie de véu que amenizava a
dor e fazia com que não viessem à tona. Mas ao ver Screek sendo levado por
aquele enorme dragão, as memórias vieram todas de uma vez. Falcão ficou ali na
grama por horas. O sol se escondeu e a lua assumiu o controle do céu, mas o
garoto permaneceu caído sobre a relva em uma posição fetal e com o rosto
enterrado na grama. E continuou ali até que o sol nasceu novamente e os raios
solares lhe tocaram a pele. Então, Falcão se ergueu e olhou para o leste. Mas
não era o mesmo Falcão. Seus olhos estavam mais sinistros, mais carregados e
refletiam o brilho do sol como chamas douradas. Seus dedos se fecharam sobre o
cabo da grande espada que ele carregava durante todos esses últimos meses e ele
a libertou, admirando sua lâmina com um novo olhar. A espada de Tolkrar, a
mesma que ferira Screek no passado. Então, ele a embainhou e se pôs a caminhar.
Sua trilha seria longa e ele iria para o leste.
***
Falcão
caminhou pela mata adiante. Em um determinado trecho, se deparou com alguns
bandidos de estrada, mas graças a sua furtividade, conseguiu percebê-los antes
que pudessem lhe surpreender. Então, esgueirou-se por entre o mato alto e os
arbustos e os gatunos jamais perceberam sua presença. Os dias foram se passando
e a floresta foi ficando mais densa e mais escura. Não demorou muito e o garoto
se viu lutando pela própria vida quando a mata começou a revelar os perigos que
escondia. Falcão foi atacado por panteras, cobras e outras feras que
espreitavam na escuridão. Um ano depois, conseguiu vencer a floresta e alcançar
os seus limites, magro e repleto de arranhões e lacerações, mas sua jornada só
estava por começar e ele continuou seu caminho rumo ao leste. Sua trilha foi
dura e longa. Ela o levou até pântanos malcheirosos e infestados de insetos e
bosques repletos de bandidos. Encontrou um porto e teve de ingressar
clandestinamente em um navio a fim de cruzar o mar. Viu homens morrerem de
doenças horríveis e depois serem jogados ao mar e quando foi descoberto, teve
que lutar para permanecer vivo, mas conseguiu aportar do outro lado do mar. Sua
jornada o levou até colinas com cidades esplendorosas, onde as mulheres
possuíam pele rosada e os cabelos vermelhos como o fogo, caminhou por grandes
planícies onde os cavalos corriam a céu aberto sem nenhum homem para montá-los
e chegou até mesmo a atravessar as ruínas de uma antiga comunidade há muito
esquecida. Mas se uma coisa permanecia constante em sua viagem eram as lutas.
Sempre ocorriam situações em que Falcão era obrigado a sacar a espada. Ele
enfrentou assaltantes, mercadores de escravos, mercenários, assassinos, ladrões
e feras como javalis, onças e até mesmo lobos. Mas seu maior obstáculo com
certeza foi a Cordilheira Sombria, uma cadeia de montanhas desbravadas
compostas por encostas íngremes e perigosíssimas e que conduziam a montanhas
ainda mais altas e espinhosas até que ele se viu em um cenário completamente
aterrador. As montanhas agora eram cobertas por neve e o frio o assolava até os
ossos. Mas nem por isso ele parou e foi quando, três semanas depois de
ingressar nas montanhas congeladas, ele viu uma grande coluna de fumaça negra o
que o fez deduzir que continuava no caminho certo. No dia seguinte, Falcão
desceu uma colina pedregosa até alcançar uma vila de pastores e percebeu que
ela havia sido assolada por um incêndio. Várias casas de madeira e palha ainda
ardiam e deixavam exalar grandes nuvens de fumaça negra, a mesma fumaça que
chamara sua atenção anteriormente. Ao vê-lo, os homens da vila o olharam com
desconfiança, armados de facões e porretes, afinal, já haviam tido muitas
perdas e não permitiriam que nenhum estranho lhes prejudicasse ainda mais.
‒ O quê o traz aqui forasteiro? ‒ exigiu um deles, um
homem obeso e de barba castanha.
Falcão o fitou com seu olhar penetrante. Ele não possuía
mais nenhuma semelhança com aquele garoto da floresta. Vinte anos haviam se
passado desde que fora afastado de Screek e agora ele era um homem feito. Mas
as diferenças não paravam por aí, pois Falcão agora tinha sido endurecido por
suas provações ao longo de todos esses anos. Todas as batalhas e esforços que
ele havia passado transformaram seus músculos em aço e suas habilidades
aperfeiçoadas como as de um leopardo. Até mesmo a expressão em seu rosto havia
mudado. O garoto bondoso e inocente havia morrido e dado lugar ao homem frio e
melancólico.
‒ Eu procuro o dragão que fez isso! ‒ respondeu ele
enquanto apontava para as casas que ainda ardiam em chamas.
Ao ouvir a palavra ‘dragão’ os homens estremeceram e
trocaram olhares amedrontados. O obeso engoliu em seco.
‒ O Grande Dragão mora na caverna da Montanha Sangrenta!
‒ disse ele, apontando para uma grande montanha escura ao longe.
Falcão voltou os olhos para a montanha e a observou por
um instante.
‒ Ótimo! ‒ disse em uma voz fria e desprovida de emoção.
Em seguida, Falcão começou a caminhar na direção da
montanha, atraindo os olhares e temerosos da multidão que o observava.
‒ O senhor não pode ir lá! ‒ disse uma mulher enquanto
levava as mãos agitadas ao rosto. ‒ É suicídio! Os dragões não podem ser
provocados! Eles só saem de suas tocas de vez em quando e quando o fazem os
resultados são desastrosos! Olhe para nossa vila! E isso porque ele nem estava
zangado!
Mas Falcão não estava prestando atenção. Depois de todos
esses anos, ele finalmente havia encontrado Screek e a toca onde o Grande Dragão
o estava mantendo prisioneiro e ele não perderia tempo com nada.
Horas
depois, já havia alcançado a base da montanha e iniciado a escalada. Subiu a
parede íngreme de pedra com facilidade, seus dedos agarrando as frestas e
fissuras na rocha como se fosse uma escada de mão. Instantes depois, alcançou a
grande fenda que servia de entrada para uma profunda caverna. Assim que
atravessou a fenda, suas narinas perceberam um forte cheiro de enxofre e ele
soube que ali encontraria dragões com certeza e com a espada em punho, começou
a se embrenhar pela caverna. A luz do sol inundava o local e não permitia que a
escuridão dominasse por completo, porém, havia muitas sombras e foi numa delas
que Falcão percebeu algum objeto imenso oculto sobre a penumbra. Estreitou os
olhos para identificar a natureza do tal objeto até que sentiu um ar quente às
suas costas. Com um movimento extremamente rápido, saltou para o lado, bem a
tempo de evitar um jato de fogo que havia sido projetado em sua direção. Falcão
rolou pelo chão de pedra e logo se pôs em pé, apenas para se deparar com um
imenso dragão vermelho, rosnando em sua direção. Então, com um brado, ele
avançou, brandindo a espada a sua frente. O dragão também avançou e girou,
evitando o poderoso golpe da espada de Falcão. Em seguida, o grande dragão
atacou com a calda, mas, rápido como um felino, o rapaz saltou por cima dela,
evitando o golpe. O dragão atacou de novo, dessa vez com as garras da pata
dianteira. Falcão se esquivou e ergueu seu aço. A lâmina mordeu a lateral do
braço musculoso do dragão, abrindo um corte em suas escamas e vertendo sangue
negro. As poderosas mandíbulas draconianas se abriram e um terrível ruído se
fez ecoar. Um homem comum teria paralisado naquele momento e sido morto no
próximo instante, mas Falcão, que já havia se deparado com um gemido de dragão
no passado, não se permitiu nem um momento de hesitação. Impulsionado por uma
raiva embriagada pela vingança e pela dor, o rapaz avançou e brandiu sua
espada, abrindo um corte na asa direita do dragão e outro na lateral de seu
grande pescoço. Furioso, o dragão atacou com a pata dianteira, atingindo Falcão
com um poderoso impacto. O rapaz se chocou contra a pedra dura e rolou pelo
chão, enfraquecido. Sua espada deslizou pelo solo de rocha sólida e parou a
alguns metros de distância da sua mão. Sem hesitar, o dragão saltou sobre ele e
no momento exato que ia abocanhá-lo, o réptil colossal estancou. Seu focinho
tocou o rosto de Falcão e o farejou. Em seguida, o grande réptil saltou para
trás como se tivesse descoberto que seu inimigo era venenoso. Confuso, mas
também furioso, Falcão saltou pelo chão e apanhou sua espada. Em seguida,
avançou na direção de seu inimigo e cravou a lâmina fria em seu peito
musculoso. O aço finamente trabalhado se enterrou nas escamas vermelhas e
atingiu as grossas costelas, partindo-se, mas mesmo assim, atingindo o coração.
O dragão urrou e se encolheu. Baixou a cabeça e olhou para Falcão com seus
olhos dourados. Falcão se preparou para desferir o golpe mortal, mas então algo
chamou sua atenção. O sol havia se movido no céu e alterado as sombras no
interior da caverna e ele viu o objeto que antes estava oculto e aquilo o fez
estremecer. Tratava-se do esqueleto de um grande dragão, maior até mesmo do que
aquele que ele estava enfrentando agora. O dragão vivo urrou novamente e se
encolheu ainda mais. Falcão se preparou para lhe enterrar a espada e foi então
que ele viu, nas costas do réptil, próximo a asa esquerda, a cicatriz de um
ferimento de espada. Aquele era Screek.
Falcão estancou. Seus dedos falharam e a espada que
segurava escorregou e caiu no chão com um baque metálico. O grande dragão que
havia sequestrado seu amigo há anos atrás jazia morto há muito tempo no canto
da caverna e seu antigo companheiro, assim como ele, havia crescido ao longo de
todo esse tempo. Ferido, Screek gemeu da mesma forma como fez vinte anos atrás,
quando a espada de Tolkrar, a mesma que o ferira agora, estava cravada em suas
costas e, daquela mesma forma, olhou para Falcão com olhos tristes. O órfão
então se ajoelhou diante do amigo e lhe tocou o corpo. Seus dedos voltaram
empapados do sangre negro do dragão que descia com abundância de seu ferimento.
‒ Screek, eu não...
O dragão o fitou e seus olhos se fecharam um pouquinho.
Falcão se aproximou e o abraçou. As escamas eram frias ao toque. Lágrimas
escorriam pelo rosto do homem e ele abraçou seu amigo com ainda mais força.
Quando Falcão voltou a olhar nos olhos de Screek, eles haviam se fechado por
completo. O dragão estava morto. Desolado, Falcão lhe removeu uma de suas
garras para guardar de recordação e depois gastou três dias e três noites para
enterrar seu corpo, prestando-lhe a melhor homenagem de que era capaz, dadas as
atuais circunstancias e deixando suas mãos na carne viva de tanto carregar
pesadas rochas cobertas de neve e as acumular sobre a carcaça de seu amigo. Falcão
deduziu que o grande dragão que jazia morto no fundo da caverna era algum
parente de Screek, talvez até mesmo sua mãe ou seu pai e que quando o pegou no
céu há vinte anos, estava apenas recuperando um filhote perdido da família.
Sentiu um grande fardo e uma sensação de que o mundo havia perdido um grande
tesouro. Algo em sua mente lhe dizia que não havia mais dragões pelos Reinos.
Mas nada daquilo importava agora. Resignado e com o coração extremamente
pesado, Falcão se ergueu, fitou o monte de terra negra que selava a sepultura
de seu amigo e então deu as costas para ela e caminhou, sem jamais olhar para trás.
***
O
velho pegou a caneca e levou aos lábios, sorvendo uma grande quantidade de água,
refrescando assim a boca que havia ficado seca por causa de sua extensa
narrativa. Rynmla o olhava fixamente.
‒ Com certeza é uma ótima história! ‒ exclamou ela. ‒ Mas
não sei se faz muito sentido! E os dragões? Havia mais deles? Ou aqueles eram
os últimos dragões viventes? E Falcão? O que aconteceu com ele?
O tio a fitou divertido.
‒ Ora, nem a melhor das histórias é capaz de resolver
todos os enigmas minha cara!
Rynmla relaxou os ombros, resignada. Em seguida, correu
para uma prateleira repleta de livros que estava ali perto. O tio a observou.
Alguns minutos depois, ela puxou um grande livro que narrava a história de um
grande guerreiro que teria que enfrentar uma colônia de gárgulas para salvar a
sua amada. Em seguida, ela desapareceu pela escada com o livro novo. O velho
então se levantou com dificuldade e começou a caminhar mancando pela sala.
Finalmente alcançou um velho baú. Meteu a mão no bolso e retirou uma chave de
bronze. Em seguida, enfiou-a na fechadura do grande cadeado de aço e girou. O
cadeado fez um clique e abriu com um
rugido. A tampa foi aberta e revelou que havia vários objetos espalhados em seu
interior, mas o que mais chamava a atenção era uma velha e bela espada, coberta
dentro da bainha. As mãos do velho a ignoraram e percorreram o interior do baú até
encontrar um pequeno saquinho de pele de javali. Seus dedos enrugados e fracos
removeram o barbante que lacrava o saquinho e o abriu. Seus dedos se fecharam
em alguma coisa em seu interior e puxaram para fora. Ao ver o objeto sobre seus
dedos, os olhos do velho se encheram de lágrimas e ele o colocou sobre o peito.
A garra do dragão Screek.
-Fim-
















































