A primeira coisa que Ariane viu foi uma luz.
Um pequeno brilho composto por uma tênue luz branca que logo se expandiu e ganhou forma, mas não apenas uma mera forma abstrata, mas várias formas dançantes e indefinidas, semelhante a uma miríade de sonhos confusos e indefinidos. Gradualmente as formas começaram a parar de dançar diante de seus olhos e a garota finalmente recuperou sua visão, assim como os demais sentidos. E ao contrário do que era de se esperar, a confusão que turvava sua mente só piorou.
Sua cabeça latejava e suas narinas ardiam graças a um forte odor que impregnava o ar. Um cheiro de bebida alcoólica misturado com estrume.
Seus olhos perscrutaram ao redor e ela percebeu que estava deitada sobre a carroceria de uma caminhonete em movimento, seus pés e mãos estavam amarrados por cordas extremamente grossas e ásperas. Com algum esforço, Ariane ergueu a cabeça para ver quem era o motorista e logo reconheceu aquela cabeça em formato achatado. A cabeça de Fernando.
As memórias da garota a atingiram com o impacto de um golpe. Há algumas semanas, ela havia conhecido Fernando, mas agora a expressão dele era bastante diferente daquela de quando se conheceram. Na ocasião, ele mantinha estampado no rosto um sorriso bobo, semelhante à feição de um vira-lata implorando por atenção. As luzes da danceteria onde ela e suas amigas se encontravam naquela noite se materializaram na mente da garota e ela novamente reviveu os sorrisos debochados e o cheiro de vodca que permeavam o local. Fernando não era nem de longe o que se pode definir como cara descolado, ele era grande e desajeitado e vestia-se com roupas estranhas, calças jeans apertadas, camisa xadrez e botas de couro − traje muito mais apropriado para um rodeio ou baile sertanejo −. E pra piorar, ele ainda ostentava algumas manchas escuras de sujeira na camisa e exalava um curioso odor, causando repulsa a qualquer mulher que se aventurasse ficar muito tempo perto dele. Porém, o rapaz era destemido, isso ninguém podia negar.
Após tomar algumas doses de tequila, Fernando havia tomado coragem e cruzado o salão até se aproximar dela e de suas amigas. Foi um surto de riso por parte das garotas quando aquele gigante puxou conversa com Ariane, porém, ela ignorou a reação de suas amigas e o cumprimentou simpaticamente. Ele teria tido sorte se ela não o tivesse feito, pois a garota, muito mais maquiavélica e cruel que suas amigas, divertia-se em humilhar aquele tipo de homem. Acostumada a receber as mais diversas cantadas diariamente, ela havia desenvolvido um gosto particular por aquele tipo de passatempo. Enquanto suas amigas trocavam sorrisinhos debochados a suas costas, Ariane conversou por algum tempo com Fernando, deixando-o expor todo o seu arsenal de cantadas e galanteios, o que não era grande coisa, apenas algumas perguntas idiotas sobre o tempo na cidade grande e sobre o trabalho dela. Até que finalmente o assunto se tornou insuportável para a garota e ela começou a ser rude com o pobre rapaz, ofendendo-o e chegando até a dizer que preferia morrer sozinha a ter qualquer tipo de intimidade com ele. Disse também que se ele realmente desejava companhia, era melhor voltar à roça e seduzir alguma cabrita, pois aí suas chances seriam melhores. A feição de desilusão e frustração no rosto daquele humilde moço do interior perduraria por muito tempo na memória dela.
Assim que seus pensamentos se organizaram, Ariane sentiu um terrível calafrio gelado que lhe percorreu toda a espinha. Alguns flashes de acontecimentos mais recentes começaram a brotar em sua mente, a imagem de um vulto se esgueirando no estacionamento do prédio em que ela trabalhava e a lembrança de uma mão forte agarrando seu braço enquanto um pano embebido em algum liquido de odor extremamente forte tapava sua boca e nariz e, por fim, uma densa escuridão quase palpável dominando seus sentidos. Agora tudo fazia sentido, ela havia sido sequestrada.
− Fernando? – ela disse após algum tempo, sua voz soando rouca por causa do medo.
Ele se virou e um sorriso amarelo brotou em seus lábios.
− Então você já esta acordada princesa? – ele disse com seu sotaque rústico do interior – Que bom, agora pelo menos terei com quem conversar!
Ariane forçou os pulsos, testando suas amarras e percebeu que não havia como fugir.
− Me tire daqui! – ela disse, esforçando-se para ordenar em tom de fúria, porém, sua voz ecoando apenas como um simples e humilde pedido desesperado.
− Há! – ele sorriu com desdém – Isso não vai acontecer princesa! Nós dois vamos passar um bom tempo juntos!
Naquele momento, cada fibra do corpo da garota se enrijeceu e um grito agudo e estridente surgiu em seus lábios quase que involuntariamente. Em resposta, Fernando explodiu em uma gargalhada tão estrondosa que abafou até mesmo o grito desesperado dela.
A viagem perdurou por um longo período. Teriam sido horas? Dias? Ariane não pôde dizer, pois se encontrava em avançado estado de choque. Mais pareceu ter sido uma eternidade. Porém, mesmo aquela aparente eternidade teve um fim e a caminhonete subitamente desacelerou e parou. Ariane rangeu involuntariamente os dentes ao perceber que o motor havia sido desligado. Olhando para cima, pôde vislumbrar o teto de folhas em vários tons de verde. Ele a havia levado a uma floresta.
Alguns instantes depois, a silhueta de Fernando surgiu na lateral da carroceria e seus braços grossos se estenderam para agarrá-la. Ao sentir o toque daqueles dedos rústicos e ásperos em sua pele, a garota foi acometida por uma forte repulsa que acarretou na injeção de uma grande quantidade de adrenalina em seu sangue, então, em uma explosão de fúria, ela lutou desesperadamente aproveitando cada gota de força que seus tenros e frágeis músculos podiam proporcionar. Mesmo assim, seus esforços foram inúteis, pois seus membros atingiam o corpo endurecido de Fernando como se estivessem golpeando uma parede.
Extasiado pelo sofrimento de sua vítima, Fernando não conteve um sorriso lupino e em um rápido movimento, agarrou o pequeno corpo de Ariane e o puxou violentamente, derrubando-a sem cerimônia no chão. A cabeça da garota atingiu o solo com bastante força, fazendo com que um fino filete de sangue começasse a escorrer de um ferimento em seu couro cabeludo. Por alguns instantes, ela ficou imóvel, sua visão embaralhada e sua cabeça latejando freneticamente. Embora seu cérebro comandasse, seu corpo não obedecia e ela sentiu as mãos de seu algoz percorrendo seus membros e tronco, removendo bruscamente cada peça de roupa que ela vestia. Quando se deu por si, Fernando a estava pondo de pé e ela estava completamente nua, a não ser pela calcinha e sutiã, ambos de cor rosa claro. Ao encarar seu agressor, Ariane percebeu que seus olhos perversos a cobiçavam ameaçadoramente. Esse foi o estopim para ela e involuntariamente desabou em prantos soluçantes.
− Por favor! – ela implorou com sua voz trêmula – Não faça isso! Deixe-me ir! Eu juro que não contarei para ninguém!
Naquele momento, o rosto de Fernando se transformou em uma feição carrancuda e cruel e ele explodiu em fúria.
−Deixá-la ir? – ele esbravejou, ofendido – Você é uma vaca egoísta que gosta de torturar aqueles que tentam agradá-la!
Amedrontada, o corpo de Ariane arqueou, lágrimas escorriam abundantemente em sua face. Fernando levou sua mão às costas e pegou o grande rifle que carregava preso a uma alça de couro negro. Em seguida, ele apontou a arma para a cabeça dela, o cano a poucos centímetros de sua testa. Ao ver o negrume do interior do cano do rifle, um novo temor percorreu a alma de Ariane e ela se desesperou, seus prantos aumentando mais ainda a intensidade.
− Sabe o que você merece vadia? – ele disse, com rispidez – Você merece que eu meta uma bala nessa sua cabecinha vazia! Que eu exploda seus miolos de merda!
Naquele momento, a agressividade de Fernando já havia aumentado e ele se aproximou, encostando o cano da arma na testa de Ariane, o metal frio contra a pele suave da garota. Com os olhos faiscando com um brilho demoníaco, o vilão apertou o gatilho.
Um clique! E mais nada. A arma não estava carregada.
Ariane sentiu uma forte náusea naquele momento e toda sua vida passou diante de seus olhos; a infância naquele bairro de classe média em São Paulo, os momentos com sua mãe quando esta voltava do hospital onde trabalhava como enfermeira, a saudade do pai quando este estava viajando para fora do país em uma das muitas viagens que ele fazia pela empresa petrolífera, o primeiro namorado, aquele garoto ruivo e sardento com o qual ela perdeu a virgindade anos atrás e bolo de chocolate. Ariane adorava bolo de chocolate. Sua ilusão dissipou subitamente quando, assim como um peixe é puxado para a superfície por um anzol, ela foi puxada de volta a realidade pela risada estrondosa de Fernando, que mal podia se conter ao se deliciar com a expressão amedrontada da garota.
− Ela não funciona sem balas minha princesa! – ele disse.
Os prantos de Ariane agora haviam se transformado em gemidos. Seus joelhos pareciam gelatina e subitamente cederam, levando-a ajoelhar-se. Fernando meteu a mão no bolso e retirou algumas balas douradas e reluzentes e, mantendo seu sorriso debochado no rosto, começou a recarregar o rifle.
− Por favor! – ela gemeu – Deixe-me ir!
Com uma expressão tranquila e arrogante, Fernando começou a caminhar na direção dela, carregando o rifle, apontando para baixo.
− Não posso deixá-la ir princesa! – ele disse em tom sarcástico e provocador – Não agora que começamos a nos divertir!
Ele projetou a extremidade da arma na direção dela, seus olhos pervertidos cobiçando a carne macia do delineado corpo da jovem. Começou a encostar o cano do rifle em seu corpo, tocando na virilha e depois subindo pela barriga e passando pelos seios. Ela gemia e chorava. Suas forças haviam sido roubadas de seu corpo. A energia para lutar que ela havia demonstrado há pouco havia desaparecido, agora só restava o medo pelo que estava por vir e a aceitação do inevitável. Ele continuou a subir o cano da arma, percorrendo o delicado pescoço da garota, passando pelo queixo até alcançar a boca.
− Seus lábios são tão lindos! – ele disse – Pena que terei que redesenhá-los!
Então, ele se afastou um passo e apontou o rifle na direção do crânio de Ariane. Arrasada, ela abaixou a cabeça e fechou os olhos, aguardando por sua sina.
− Hora da caçada! – vociferou Fernando.
Foi nesse momento que ele atirou. O estampido do rifle fez com que várias aves levantassem voo e agitassem os galhos das copas das arvores. Mas Ariane continuava viva. Ela havia sentido o zumbido veloz do projétil viajando a poucos milímetros do lado direito de seu rosto. Seu coração ameaçou explodir de tão acelerado que batia e ela abriu os olhos. Fernando ainda apontava o rifle para sua cabeça, o cano fumegante. Ele não se movia. A princípio, ela não entendera a atitude de seu algoz, mas foi então que deduziu que aquele talvez fosse algum tipo de jogo doentio e foi graças a esse pensamento que ela saiu do transe em que se encontrava e se levantou de um salto, escolhendo uma direção a esmo e correndo o mais rápido que podia. Fernando a observava imóvel, semelhante a uma cobra observando sua presa.
Ignorando as pedras que feriam seus pés descalços, Ariane correu e mergulhou na densa floresta que se estendia para todos os lados. Sombras ameaçadoras se agitavam ao seu redor enquanto ela se deslocava naquele cenário inóspito e selvagem, mas mesmo assim, ela não ousava parar, pois sabia o que Fernando provavelmente estava a poucos metros de distância às suas costas. Foi então que o chão terminou em um íngreme escarpado coberto de grama e ela, incapaz de cessar sua corrida por causa da inércia, mergulhou morro abaixo. A garota rolou violentamente e por mais de uma vez atingiu arbustos e troncos de arvores, assim como raízes e outros tipos de talos e extremidades de vegetação que abriram diversos cortes em sua pele e provocaram doloridos edemas e escoriações em seu corpo e cabeça. Mas finalmente ela parou de cair, pois chegara a um terreno plano e coberto de sombras.
Atordoada pela queda, ela olhou para cima e aguardou por alguns instantes. Foi então que uma ameaçadora silhueta surgiu no topo do escarpado e ela percebeu que era Fernando. O caçador perscrutava todo o local com seu olhar arguto.
Ariane não sabia se era possível que ele a visse lá embaixo, uma vez que o local em que se encontrava estava quase completamente coberto por sombras, mas mesmo assim, preferiu manter-se imóvel e silenciosa. Foi então que sentiu uma coisa pegajosa tocando a pele de seu pescoço, fazendo-a arrepiar todinha. Acometida por um temor sobrenatural, ela prendeu a respiração e enrijeceu tanto seu corpo que suas articulações arderam como brasa. Enquanto aquele ser desconhecido se arrastava lentamente pelos seus seios e barriga, os olhos de Ariane se acostumaram com a escuridão e ela começou a distinguir contornos e cores. Foi então que percebeu o que era aquilo que se rastejava por cima de seu corpo e quase soltou um grito ao descobrir que se travava de uma grande serpente. Quando o réptil já estava quase completamente fora de cima dela, a garota não se conteve e recuou para um lado bruscamente, temendo que o animal se voltasse em sua direção e lhe desse o bote. Assim que se viu livre dos terríveis anéis da cobra, Ariane correu novamente, porém, desta vez, mancando graças aos seus novos ferimentos.
Uma forte depressão se apoderou do fragilizado coração da garota quando ela concluiu que Fernando não era o único perigo naquela floresta. Ela tinha a impressão de que cada sombra, cada rocha e cada arvore escondia algum perigo. A morte estava à espreita por todos os lados e não demorou muito para que Ariane se visse novamente flertando com ela.
Sobrepujada pela fadiga e pela dor dos ferimentos que se espalhavam por todo o seu corpo, a garota cambaleou e caiu ajoelhada sobre uma espécie de depressão coberta por grama e foi nesse momento que ela sentiu a presença de um mal terrível a observando além da espessura de vegetação que a cercava. Instintivamente, ela procurou por seu observador e depois de alguns momentos, conseguiu vislumbrar um par de olhos amarelos que vigiavam no escuro.
Foi então que um grande animal emergiu do meio dos arbustos. Uma grande onça pintada, com seus olhos dourados observando alertas a garota a sua frente e suas patas dotadas de garras extremamente afiadas tocando levemente a grama no chão, sem provocar qualquer ruído. Novamente, Ariane não lutou, pois se sentia completamente incapacitada, apenas aguardando o fim que estava por vir.
O felino continuou a se aproximar até finalmente ficar a distância de um salto da garota indefesa.
Ariane não chorou, nem tampouco fez coisa alguma e, por algum capricho do destino, a onça não a atacou, apenas farejou o ar e se virou para um lado, caminhando tranquilamente logo em seguida. A garota observou, atônita, o selvagem animal se afastando e agradeceu mentalmente a Deus por aquilo. Ela teria permanecido ali por algum tempo, mas sua atenção foi atraída por um som distante, mas nítido, o som do motor de um carro. Ariane então se levantou e correu naquela direção. Ela foi forçada a escalar uma íngreme ladeira de terra até alcançar uma estrada e cair esgotada no asfalto quente no exato momento em que um Chevrolet Corsa prata se aproximava a 60 quilômetros por hora.
O motorista do Corsa afundou seu pé no freio e fez o carro dançar na pista e brecar a apenas meio metro de distância da cabeça da garota. Extremamente assustado, um homem moreno e vestido de terno e gravata saiu do veículo, olhando incrédulo para Ariane e correndo em sua direção.
−Você está bem garota? – ele perguntou.
Ela não respondeu, apenas tentou mover os lábios, mas as palavras não saíram. Imediatamente, o homem se agachou próximo a ela e colocou gentilmente sua cabeça sobre seus braços.
− O que aconteceu?
− Tem um homem... – ela gaguejou – me perseguindo!
Por um momento, uma névoa de terror permeou os olhos do viajante.
− Não se preocupe! Você está salva agora! Eu vou...
Antes que ele pudesse terminar sua frase, ouviu-se um estampido a certa distância e imediatamente a cabeça dele foi impulsionada para trás bruscamente. Ariane forçou seus já esgotados músculos e com grande sacrifício ficou de pé, apenas para se deparar com uma visão aterradora que iria assombrá-la pelo resto de sua vida. A cabeça de seu benfeitor havia sido perfurada por um projétil na testa, fazendo com que a parte de trás de seu crânio explodisse e espalhasse sangue e miolos por vários metros de distância. O estômago dela revirou e ela sentiu vontade de vomitar, mas mesmo assim se voltou para a direção de onde provavelmente havia vindo o disparo. Qual a sua surpresa ao vislumbrar a quase um quilômetro de distância, a imagem de Fernando segurando o rifle e entrando em sua caminhonete que estava estacionada no acostamento da estrada.
Sem se permitir nenhum momento para pensar, Ariane saltou para dentro do Corsa que ainda estava ligado, soltou o freio de mão, engatou a marcha e disparou, pisando fundo. Ao longe, Fernando também acelerou seu automóvel, irrompendo na direção de sua vítima. O motor do Corsa rangeu, mas Ariane não parou de acelerar, porém, um frio calafrio percorreu suas entranhas quando ela percebeu que a caminhonete se aproximava velozmente de sua traseira.
− Maldito carro 1.0! – ela esbravejou ao mesmo tempo em que socava o volante.
Não demorou muito e a caminhonete alcançou o carro dela. Pelo retrovisor, a garota conseguiu enxergar o sorriso perverso de Fernando, minutos antes do para-choque da caminhonete atingir violentamente a traseira de seu automóvel e fazê-la perder o controle da direção. O Corsa dançou na pista e atingiu a barreira de contenção, atravessando-a para em seguida mergulhar velozmente em uma ribanceira.
O carro saltou e sacudiu em violentos solavancos até finalmente se chocar contra um grande carvalho. Ariane só não morreu porque na hora em que entrou no carro, sem perceber, havia colocado mecanicamente o cinto de segurança, caso contrário, teria sido arremessada para se chocar de cabeça contra o caule da grande arvore. Mesmo assim, ela não havia saído ilesa do acidente, pois, com o impacto, o para-brisa havia explodido em milhares de pequenos cacos de vidro que abriram inúmeros cortes em seu rosto, ombros, braços e seios. Por um momento, ela se manteve tão viva quanto um zumbi, mas logo seu instinto de sobrevivência retomou o controle do corpo e o reanimou. Ela se livrou do cinto de segurança e forçou a porta a seu lado, inutilmente, uma vez que a mesma havia sido retorcida e a agora apenas os bombeiros com seus equipamentos conseguiriam abri-la. Por sorte, o vidro estava aberto e ela conseguiu sair pela janela, caindo para fora do veículo, extremamente fraca e atordoada. Sangue escorria de seus lábios e de incontáveis lacerações que se espalhavam por todo o seu corpo seminu. Ela observou aturdida a carcaça retorcida e fumegante que um dia havia sido o Corsa e sua atenção foi atraída por um objeto vermelho que havia sido arremessado do interior do veículo. Com dificuldade, a garota se abaixou e o pegou. Seu olhar estava extremamente sombrio e ela pouco se assemelhava a Ariane que entrara na floresta. Agora ela sabia que só havia uma chance de viver. Ela teria que lutar.
***
Fernando estacionou sua caminhonete no acostamento próximo ao local onde o Corsa atravessara a barreira de contenção e saiu de seu veículo retirando o rifle das costas. Ao olhar para o fundo da ribanceira, conseguiu perceber as marcas na grama, mas não viu o carro que havia despencado, pois este fora tragado para dentro da floresta. Fernando então pigarreou e cuspiu uma nojenta bola de catarro no chão, para depois começar a descer cautelosamente o íngreme morro de terra.
Meia hora depois ele alcançou o fundo, onde logo pôde vislumbrar o carro retorcido, junto ao carvalho. Apontando o rifle, se aproximou furtivamente do veículo e olhou pela janela, mas não encontrou Ariane.
− Bosta! – vociferou ele.
Observando minuciosamente o terreno, o caçador percebeu algumas marcas na grama. O que para um leigo não passava de leves alterações na vegetação, para ele denunciavam que alguém havia caminhado por ali. Então, mantendo o rifle pronto para atirar, ele começou a seguir os rastros, mergulhando novamente na densa floresta sombria. Alguns minutos depois, rastros o levaram a uma espécie de brejo lodoso e fedorento, coberto por água esverdeada e juncos.
− Onde você está princesa? – ele gritou – Não pretendo lhe fazer mal!
Não houve resposta, apenas o pequeno ruído provocado pela passagem de um esquilo, mas que foi suficiente para atrair a mira de Fernando. Em seguida, ele praguejou por ter sido atraído pelo pequeno roedor. Depois, deduziu que não haveria alternativa a não ser atravessar o brejo.
− Não acredito que vai me obrigar a isso sua vaca!
Sem mais delongas, o caçador entrou no brejo, afundando até a barriga. Ele erguia o rifle acima da superfície da água para não inutilizá-lo e caminhava com bastante dificuldade, pois a água estava coberta de musgo e lama. O homem não havia se deslocado nem meio metro quando algo emergiu da água lodosa e se precipitou em sua direção. Era Ariane e ela erguia acima da cabeça um objeto oval, que não era nada mais que o pequeno extintor de incêndio do Corsa, que havia sido arremessado para fora do veículo quando este se chocou contra o carvalho.
Fernando ergueu o rifle para se defender e a garota o atingiu com o extintor, quebrando algumas peças da arma e tornando-a inútil. Mas ela não se conteve e, bradando como uma louca, continuou atacando freneticamente. Fernando a superava em tamanho e força, mas ele havia sido surpreendido por ela e não pôde evitar que a jovem o atingisse com aquele objeto pesado um poderoso golpe na têmpora. Imediatamente, o caçador perdeu os sentidos e pendeu para um lado. Consumida por um enlouquecido frenesi, ela não interrompeu seu ataque e o acertou mais duas vezes na cabeça, fazendo brotar sangue. Até que Fernando finalmente afundou completamente no brejo, sumindo da vista dela.
Foi então que Ariane voltou a si e se viu ofegante e coberta de lodo e lama, segurando um extintor amassado na mão direita. Seus dedos trêmulos deixaram sua arma cair e afundar na água e ela se estremeceu por completo. Forçando todo o seu corpo que doía e ardia como se estivesse sendo perfurado por facas, Ariane se deslocou para fora do brejo, arrastando-se pela margem. Quando finalmente conseguiu sair completamente daquele lodaçal, foi acometida por uma terrível e macabra surpresa. Fernando ainda estava vivo! O brutamontes emergiu do fundo do brejo sem qualquer aviso e saltou sobre ela, arremessando-a para frente com um poderoso soco na cabeça.
− Sua vadia desmiolada! – ele bradou furiosamente – Vou estripar você como se faz com um porco!
Nesse momento, ele meteu a mão no cinto e puxou algo. Ariane se estremeceu ao ver o brilho azulado da lâmina da grande faca do caçador. Ele se aproximou da indefesa garota e agarrou seu couro cabeludo violentamente. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Em seguida, ele ergueu a faca e a olhou cruelmente, apenas para descer a lâmina velozmente em direção a sua garganta. Porém, seu movimento foi interceptado por uma sombra que emergiu da mata e saltou sobre o peito do grande homem.
A faca caiu no chão e Ariane, mole feito uma marionete caiu ao seu lado, mas mesmo assim ela pôde ver o grande felino se engalfinhando com seu algoz. A garota reconheceu o animal, era a mesma onça que ela havia encontrado na floresta momentos atrás e agora mordia e dilacerava o pescoço de Fernando, ao mesmo tempo em que suas garras se enterravam no peito do homem que berrava e se debatia inutilmente contra aquele predador voraz.
Utilizando-se das ultimas gotas de energia que ainda existiam em seus músculos feridos, Ariane se levantou e deu as costas para aquele espetáculo de horror e sangue.
FIM